Livros de cabeceira: Rapto em Lisboa: um livro que não se larga depois de fechar
- Francisco Fiúza

- 7 de fev.
- 2 min de leitura
Atualizado: 8 de fev.

Há livros que passam por nós, e há livros que ficam. Rapto em Lisboa ficou. Não só pela história, mas pela forma como me apanhou desprevenido e me puxou para dentro dela, como se tivesse entrado na caravela ao lado de Saulo, sentido o calor sufocante de São Tomé e ouvido o silêncio pesado do convento onde deixaram Leah.
O que mais me marcou não foi uma cena isolada, foi o conjunto. A maneira como Paul D. Cohn escreve faz-nos esquecer que estamos a ler. De repente, estamos lá. A violência não é apenas descrita, é sentida. A ambiência não é cenário, é corpo. E a história, apesar de se passar no século XV, bate como se estivesse a acontecer agora.
Há uma parte que nunca me saiu da cabeça: Saulo preso na caravela. O aperto, a escuridão, a sensação de que o mundo se tornou pequeno demais para respirar. Não é só o horror físico. É a ideia de alguém ser arrancado da sua vida, da sua fé, da sua família, e atirado para um destino que não escolheu. O livro faz-nos sentir isso sem pedir licença.
Quando chega a São Tomé, percebemos que a viagem foi apenas o início. A ilha é um choque. Febres, castigos, injustiças, gente a morrer como se fosse normal. Mas é também ali que Saulo começa a erguer-se, a encontrar força, a desafiar o que parecia impossível. Isso dá uma profundidade enorme à sua caminhada.
Leah vive outra forma de prisão, mais silenciosa, mas igualmente cruel. E quando os dois se reencontram, anos depois, sentimos o peso de tudo o que carregaram sozinhos.
Para mim, Rapto em Lisboa não foi apenas uma leitura. Foi uma experiência. Daquelas que nos agarram pelo colarinho e dizem: olha bem para isto, isto aconteceu mesmo. Talvez seja por isso que, mesmo depois de o livro acabar, a história continua a ecoar.





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