Portugal, o Clima e o País que Ainda Não Acordou
- Francisco Fiúza

- 11 de fev.
- 2 min de leitura

As primeiras semanas do ano trouxeram imagens que muitos portugueses nunca tinham visto ao vivo. Não foram cheias clássicas, daquelas que faziam os rios sair das margens e ocupar as várzeas como acontecia noutros tempos. Foram episódios que fazem lembrar essas antigas cheias, mas agravados por anos de seca e por solos endurecidos, incapazes de absorver a água que caiu de forma concentrada. O território perdeu elasticidade. Onde antes havia infiltração, agora há escorrência. Quando a chuva chega intensa e súbita, encontra um país cada vez mais impermeabilizado. O resultado não é o regresso de um fenómeno antigo, é a consequência direta da forma como deixámos o território secar e endurecer.
Para muitos, sobretudo os mais novos, isto foi uma estreia. Uma realidade que não fazia parte da sua experiência. E, no entanto, bastava olhar para o território para perceber que este desfecho estava a ser preparado há anos. Solos exaustos, rios frágeis, impermeabilização crescente, ausência de planeamento. Não foi surpresa. Foi consequência.
A paisagem continua familiar. A luz cai sobre as colinas com a mesma suavidade, o vento do Atlântico entra pelas janelas como sempre entrou, e o cheiro da terra húmida ainda nos devolve memórias de um país estável. Mas o clima já não é o mesmo. Mudou na forma como a água cai, na velocidade com que o solo satura, na intensidade com que o calor se instala.
A água é o primeiro sinal desta mudança. Secas longas, chuvas concentradas, barragens que oscilam entre o vazio e o excesso, aquíferos pressionados, rios que já não sabem quando devem correr. A água deixou de ser previsível. Tornou-se um sistema frágil que exige gestão e cuidado.
A agricultura é o segundo sinal. O campo está a mudar de cor, de ritmo e de resistência. As culturas tradicionais sofrem, os solos cansam-se, a água falta, o calor aperta. Modelos agrícolas pensados para outro clima começam a mostrar limites.
A floresta é o terceiro sinal. Arde todos os anos com a mesma violência, não apenas pelo fogo, mas pelo combustível acumulado, pelo abandono e pela falta de diversidade na paisagem. O problema não nasce no verão, constrói-se ao longo de décadas.
As cidades são o quarto sinal. Tornaram-se superfícies duras e quentes. Quando chove, não sabem absorver a água. Quando faz calor, não conseguem proteger quem vive nelas. Foram desenhadas para um clima mais estável do que aquele que agora existe.
O problema não está apenas no clima, mas na forma como o país se habituou a reagir em vez de antecipar, a remendar em vez de transformar, sempre à espera que o tempo regressasse ao que conhecíamos. Mas o tempo não regressa.
E, no entanto, há uma oportunidade à nossa frente. Portugal tem escala para mudar, conhecimento acumulado, luz e vento em abundância, água suficiente se for bem guardada. As cidades podem ser redesenhadas, a floresta regenerada, a agricultura adaptada a novas condições.
Não se trata de um futuro distante nem de uma previsão abstrata. É o presente que já se infiltra no solo, nas margens dos rios e nas ruas das cidades. Ainda temos escolha. Ainda podemos aprender a guardar a água quando ela chega, a devolver vida ao solo e a preparar o território para o clima que existe, não para o que ficou na memória.





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