Rota: Vila Nova de Milfontes, uma vila à beira-mar plantada
- Francisco Fiúza

- 21 de fev.
- 3 min de leitura

Vila Nova de Milfontes nasceu entre o rio Mira e o Atlântico, num lugar onde a terra sempre teve de olhar para o mar com respeito. Fundada por D. João II no século XV para proteger a costa e estimular o comércio marítimo, foi durante séculos um pequeno posto defensivo e uma comunidade piscatória. O Forte de São Clemente, junto à foz do Mira, continua a lembrar esse tempo. Hoje a vila vive mais tranquila, mas mantém essa ligação natural ao rio, ao mar e à vida simples do litoral alentejano.
Cheguei a Milfontes por volta das três da tarde. O primeiro passo foi o check-in na Casa das Marias, na Travessa de Santa Maria, número 4. Um lugar simples e acolhedor. A Dona Maria Teresa recebeu-nos com café e biscoitos caseiros, daqueles que fazem sentir que chegámos a casa de alguém conhecido e não apenas a um alojamento.
Depois de nos instalarmos, saímos para caminhar pela vila sem destino. A luz começava a descer e acabámos por parar no RiverSide Pub, um daqueles sítios onde o tempo abranda naturalmente. Com o pôr do sol sobre o rio, pedimos uma cerveja bem gelada e começámos por petiscar qualquer coisa. A conversa ficou, o momento também, e acabámos por jantar ali mesmo. Os hambúrgueres da casa estavam um espetáculo.
Já de noite, seguimos pelas ruas históricas da vila. Passámos pela Barbacã e pelo Forte de São Clemente. Em frente ao forte encontra-se o monumento que recorda a travessia aérea Portugal–Macau de 1924, realizada por Brito Paes e Sarmento Beires, que partiram do Campo dos Coitos, junto a Milfontes. Um episódio improvável que ligou uma pequena vila do litoral alentejano ao Oriente e à história da aviação portuguesa.
Continuámos até ao edifício onde hoje funciona a Paparoca, que já foi câmara municipal, escola e cadeia. A vila tem esta forma tranquila de misturar passado e presente sem fazer disso um espetáculo.
Caminhando mais um pouco, chegámos ao largo da junta de freguesia, lugar onde antigamente se fazia a praça. Ali encontrámos o Bar Azul, antigo edifício dos correios, hoje um bar de mesa, daqueles feitos para conversar sem pressa, jogar snooker ou umas setas e deixar a noite seguir o seu curso.
Mais tarde regressámos ao alojamento. Milfontes estava silenciosa e o som distante do mar fazia companhia.
Na manhã seguinte acordámos devagar e fomos tomar o pequeno-almoço à Mabi. Croissants ainda mornos e sumos naturais, simples e bons, como devem ser as manhãs de viagem.
Seguimos depois até à praça, onde se vendia peixe fresco e legumes do dia. Ficámos apenas a observar o movimento e comprámos duas peças de fruta para o caminho.
Descemos então até ao Portinho do Canal, onde o Atlântico se abre por completo. Ali está a escultura A Liberdade, um ovo de pedra aberto cuja cavidade desenha uma ave em voo e deixa ver o mar do outro lado.
No pequeno porto, pescadores descarregavam o peixe da manhã.“Hoje o mar deixou trabalhar”, disse-nos um deles, enquanto puxava uma caixa de peixe. “Nem sempre deixa.”
À hora de almoço fomos até A Mangedoura. Entre petiscos e sugestões do dia, acabámos por escolher uma posta à barrosã, prato típico do Minho e não do Alentejo, mas impossível de recusar. Carne tenra, bem grelhada, daquelas refeições que pedem silêncio à mesa. Para sobremesa, uma fatia de sericaia, doce alentejano que nunca falha.
Durante a tarde regressámos à Barbacã para um passeio de barco pelo rio Mira. A vila foi ficando para trás enquanto o rio se tornava mais silencioso. As margens verdes substituíam as casas e o barco seguia devagar, como se o próprio rio pedisse calma.
Ainda houve tempo para um mergulho na Praia do Farol, que recebe o nome do pequeno farolim ali instalado, uma estrutura de sinalização costeira usada para orientar embarcações perto da costa. Na rotunda próxima encontra-se a escultura O Arcanjo, já integrada na paisagem da vila. Saímos da água devagar, ainda com o sal na pele e o dia a terminar.
Saímos da praia diretamente para jantar na Choupana, ali mesmo ao lado, onde o peixe fresco continua a ser a escolha natural.
Na manhã seguinte fizemos o check-out e passámos pela Paragem Vicentina para um último pequeno-almoço antes de regressar. Depois estrada. Milfontes ficava para trás, tranquila como sempre.


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